sexta-feira, 15 de dezembro de 2006

Preconceitos

Hoje entrei em um debate que pouco me agradou, não pelo fato da discussão e nem pelas opiniões divergentes que encontrei (em algum lugar eu li que toda unanimidade é burra), mas sim pela hipocrisia que transborda quando esse assunto é abordado. E confesso também que me irrita profundamente quando tentam me vender uma verdade que não existe, claro que não quero que todo mundo concorde com o que eu acho ou penso, mas produzir uma discussão baseada em alicerces morais infundados ou basicamente construídas em cima de padrões sociais que ditam o que é moralmente certo ou errado, acaba sendo uma ofensa de tamanho incalculável.
Bem, deixe-me esclarecer qual foi a pergunta que que gerou tamanha indignação (pelo menos da minha parte). Em meio a uma roda de amigos, entre inúmeros assuntos aleatórios (assuntos banais, com raros lampejos de seriedade) surgiu o assunto de preconceitos, e tudo começou por causa do polêmico filme "O Segredo de Brokeback Mountain", onde relata uma linda história de amor, o que seria muito comum senão fosse o fato da trama se desenrolar entre dois homens. E no meio dessa conversa surgiu a questão de quem seria preconceituoso ou não. E então, nosso pequeno grupo de amigos se dividiu da seguinte forma: duas pessoas se recolheram em um silêncio sepulcral, duas disseram que são livres de qualquer preconceito e eu, que assumi todo a minha postura preconceituosa. Não preciso dizer que tive que me defender com unhas e dentes da enxurrada de lições de moral que recebi. Se as pessoas que se declararam "não preconceituosas", tivessem usado suas próprias opiniões, valeria a pena investir em um caloroso debate sobre o assunto, mas o que ouvi foram belos discursos decorados, que como a paz mundial, é pregada aos quatro ventos, mas não passa de uma linda utopia. Pois é muito fácil (e mais bonito) dizer que meu grande sonho é a paz mundial, de um mundo sem fome, sem violência e sem guerras. Quando na verdade, sentamos em cima de nosso comodismo, olhamos com desdém para o mendigo que revira nossos lixos, ignoramos as pessoas que cruzam nossos caminhos e somos incapazes de admitir que nosso verdadeiro sonho é muito mais egoísta do que gostaríamos. E tudo isso porque vivemos, não de acordo com o que sentimos ou que acreditamos, mas sim, porque somos escravos de valores morais que ditam como devemos ser, apenas para sermos aceitos dentro de nossa sociedade "sem preconceito" e "sem hipocrisia".
E quando assumo que sou uma pessoa preconceituosa, é porque acredito piamente, que jamais encontrarei alguém que seja despido de qualquer preconceito (gostaria de estar errada), porque crescemos aprendendo o que é certo e o que é errado, e esses valores morais são altamente questionáveis.
Confesso meu preconceito porque já exitei em abraçar e beijar uma pessoa portadora do HIV (mesmo tendo pleno conhecimento dos meios de contágio), desviei o olhar quando vi dois homens se beijando no meio da rua, recusei dar dinheiro a quem precisava porque achei que o mesmo iria gastar com bebida alcoólica, me afastei de uma amiga porque descobri que ela era prostituta, e muitas outras pequenas coisas que acabam passando despercebidas.
E digo, viver sem preconceito é um ato impraticável (gostaria de descobrir que estou terrivelmente enganada).
E quando, enfim me cansei das longas lições de moral, me despedi dos amigos e ao sair da interminável discussão (onde pouco falei), passou um garoto que trajava uma bela calça de couro, camiseta baby look, óculos espelhados, boina e uma bota que imitava couro de crocodilo. Enquanto me afastava pude ouvir um dos "não preconceituosos" dizendo: _ Como uma figura dessas tem coragem de sair de dia ? Isso devia ser proibido.

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